Dores Musculares e Síndrome Miofascial

dores musculares

A dor muscular é uma queixa frequente e pode estar relacionada a diferentes condições. Entre as causas mais comuns na prática clínica está a síndrome miofascial, caracterizada por dor regional associada à presença de pontos-gatilho em músculos e estruturas miofasciais.

A síndrome miofascial pode acometer diferentes regiões do corpo, mas é especialmente frequente na musculatura relacionada à coluna e à cintura escapular, como trapézio, romboides, elevador da escápula, musculatura paravertebral cervical e dorsal, quadrado lombar e demais músculos paravertebrais lombares.

Também pode ocorrer em pessoas submetidas a sobrecarga muscular, atividades físicas intensas ou repetitivas, alterações posturais e desequilíbrios biomecânicos. [1,2]

O que é a síndrome miofascial?

A síndrome miofascial é uma condição de dor musculoesquelética regional relacionada à presença de pontos-gatilho miofasciais, que são regiões hiperirritáveis localizadas no músculo, frequentemente associadas a uma banda muscular tensa.

A palpação dessas regiões pode reproduzir a dor do paciente e, em alguns casos, provocar dor referida, percebida em uma área diferente daquela em que o ponto-gatilho está localizado. [1,3]

Os sintomas podem incluir:

  • Dor muscular localizada;
  • Sensibilidade à palpação;
  • Sensação de tensão ou contratura muscular;
  • Redução da amplitude de movimento;
  • Rigidez;
  • Dor referida para regiões próximas ou distantes;
  • Piora da dor com determinados movimentos ou sobrecarga muscular.

A síndrome miofascial pode ser primária, quando o músculo é o principal gerador da dor, ou pode ocorrer de forma secundária a outra condição musculoesquelética.

Por que a síndrome miofascial aparece?

Diversos fatores podem contribuir para o aparecimento ou a manutenção da dor miofascial.

Entre eles estão:

  • Sobrecarga muscular;
  • Movimentos repetitivos;
  • Atividade física intensa;
  • Permanência prolongada em determinadas posições;
  • Alterações posturais;
  • Desequilíbrios biomecânicos;
  • Descondicionamento físico;
  • Trauma;
  • Doenças da coluna e de outras estruturas musculoesqueléticas. [1,2]

Em muitos pacientes, entretanto, a dor muscular não representa o problema principal.

Uma alteração em uma articulação, na coluna, em um tendão ou em outra estrutura musculoesquelética pode provocar sobrecarga e contratura da musculatura próxima, como mecanismo de proteção ou adaptação ao movimento doloroso.

Nessas situações, tratar apenas a musculatura pode proporcionar melhora temporária, mas a dor pode retornar se a causa primária não for identificada e tratada.

Por isso, a avaliação médica deve procurar compreender o conjunto de fatores envolvidos na dor, e não apenas o local onde o paciente sente a maior sensibilidade.

Síndrome miofascial relacionada à coluna

A musculatura próxima à coluna é frequentemente envolvida em quadros de dor cervical, torácica e lombar.

Na região cervical e da cintura escapular, são frequentemente encontrados pontos dolorosos em músculos como:

  • Trapézio;
  • Elevador da escápula;
  • Romboides;
  • Musculatura paravertebral cervical.

Na região torácica, podem estar envolvidos os músculos paravertebrais e a musculatura estabilizadora da escápula.

Na região lombar, a síndrome miofascial pode envolver a musculatura paravertebral, o quadrado lombar e outros músculos relacionados à estabilização da coluna e da pelve.

Essas alterações podem acompanhar doenças da coluna, sobrecarga mecânica, alterações posturais ou desequilíbrios musculares.

Por isso, em alguns pacientes, a melhora definitiva da dor muscular depende também do tratamento da condição musculoesquelética que provocou ou mantém a sobrecarga muscular.

Atividade física e síndrome miofascial

A prática de atividade física é importante para a saúde musculoesquelética, mas exercícios excessivos, aumento abrupto da carga de treinamento ou movimentos repetitivos podem provocar sobrecarga muscular.

Isso não significa que o paciente deva evitar exercícios.

Ao contrário: a recuperação da força, da mobilidade e do controle motor costuma fazer parte do tratamento.

A questão é identificar qual carga está adequada para aquele paciente, corrigir fatores biomecânicos e promover uma progressão adequada da atividade física.

Atletas e pessoas fisicamente ativas também podem desenvolver síndrome miofascial, principalmente quando existe desequilíbrio entre carga de treinamento, recuperação, força muscular e biomecânica do movimento.

Tratamento da síndrome miofascial

O tratamento depende da causa e das características de cada paciente.

A fisioterapia é uma das principais ferramentas terapêuticas e pode incluir exercícios de fortalecimento, mobilidade, alongamento, treinamento do controle motor, terapia manual e correção de alterações biomecânicas.

Em determinados pacientes, atividades como Pilates podem contribuir para melhora do controle motor, força e mobilidade. Técnicas de terapia manual e abordagens como a osteopatia também podem ser utilizadas dentro de uma estratégia individualizada de reabilitação.

O mais importante é que o tratamento não seja direcionado exclusivamente ao músculo doloroso, mas também aos fatores que estão mantendo a sobrecarga.

Tratamentos intervencionistas

Quando a dor miofascial permanece apesar das medidas conservadoras ou quando os pontos-gatilho contribuem significativamente para a limitação funcional, podem ser utilizados tratamentos intervencionistas.

Agulhamento a seco

O agulhamento a seco (dry needling) consiste na introdução de uma agulha diretamente no ponto-gatilho miofascial, sem a necessidade de injeção de medicamentos.

O procedimento pode reduzir a dor e melhorar a função muscular em pacientes selecionados. Estudos demonstram benefícios principalmente no curto e médio prazo, especialmente quando o tratamento é associado à reabilitação e ao exercício. [4,5]

Infiltração de pontos-gatilho

Outra possibilidade é a infiltração de pontos-gatilho, realizada com anestésico local em determinadas situações.

A infiltração pode ser utilizada para reduzir a dor e permitir que o paciente avance no tratamento fisioterápico e na recuperação funcional. [2,6]

Quando indicada, a realização do procedimento com orientação ultrassonográfica pode auxiliar na identificação das estruturas anatômicas e na realização mais precisa e segura da intervenção.

Outras abordagens

Dependendo do caso, outras estratégias podem ser utilizadas no tratamento da dor miofascial, incluindo técnicas de fisioterapia, terapia manual, exercício terapêutico e, em pacientes selecionados, recursos como terapia por ondas de choque. [7]

A escolha do tratamento depende da localização da dor, da causa, da presença de pontos-gatilho, das alterações biomecânicas associadas e da resposta às terapias anteriores.

Tratar o músculo ou tratar a causa?

Essa é uma das questões mais importantes na avaliação da dor muscular.

Um paciente pode apresentar uma importante contratura no trapézio, por exemplo, mas a origem do problema pode estar relacionada a uma alteração cervical, a uma disfunção da cintura escapular, a uma sobrecarga postural ou a outro problema musculoesquelético.

Da mesma forma, uma contratura lombar pode estar associada a uma alteração da coluna, da articulação sacroilíaca, do quadril ou a um desequilíbrio biomecânico.

Nessas situações, tratar apenas o músculo pode aliviar os sintomas, mas não necessariamente eliminar o fator que está provocando a sobrecarga.

Por isso, o tratamento mais adequado é aquele que combina o controle da dor muscular com a identificação e correção dos fatores que contribuíram para o seu aparecimento.

Quando procurar um especialista em dor?

A avaliação por um médico especialista em dor é especialmente importante quando a dor muscular é intensa, persistente, recorrente ou associada a importante limitação funcional, ou quando não melhora adequadamente com as medidas iniciais.

A avaliação permite diferenciar uma síndrome miofascial isolada de uma dor muscular secundária a alterações da coluna, articulações, tendões, nervos ou outras estruturas.

O objetivo é identificar a origem da dor e estabelecer um tratamento individualizado, que pode combinar medicina intervencionista da dor, fisioterapia, exercício terapêutico e correção dos fatores biomecânicos.

Perguntas e respostas

O que é síndrome miofascial?

É uma condição de dor musculoesquelética regional associada a pontos-gatilho miofasciais, que podem provocar dor localizada e também dor referida para outras regiões.

Síndrome miofascial é a mesma coisa que contratura muscular?

Não necessariamente. A contratura ou tensão muscular pode fazer parte do quadro miofascial, mas a síndrome miofascial envolve um conjunto de alterações clínicas relacionadas ao músculo e aos pontos-gatilho.

Quem pratica atividade física pode ter síndrome miofascial?

Sim. Sobrecarga, aumento rápido da intensidade dos exercícios, movimentos repetitivos e recuperação inadequada podem contribuir para o desenvolvimento ou manutenção da dor miofascial.

É necessário parar de fazer exercício?

Na maioria das situações, não. O exercício faz parte da recuperação musculoesquelética. A carga deve ser ajustada às condições do paciente e aumentada progressivamente.

Agulhamento a seco funciona para dor miofascial?

O agulhamento a seco pode reduzir a dor e melhorar a função em pacientes com síndrome miofascial, principalmente no curto e médio prazo. Ele deve ser utilizado como parte de um tratamento mais amplo, associado à reabilitação e à correção dos fatores que mantêm a sobrecarga muscular. [4,5]

Infiltração muscular pode ser realizada?

Sim. Em pacientes selecionados, pontos-gatilho podem ser tratados por infiltração, geralmente com anestésico local. A indicação depende da avaliação clínica e da causa da dor. [2,6]

Por que a dor volta depois de tratar a contratura?

Isso pode acontecer quando o fator responsável pela sobrecarga muscular permanece presente. Alterações da coluna, desequilíbrios biomecânicos, postura, sobrecarga esportiva ou outras condições musculoesqueléticas podem continuar estimulando a musculatura.

Por isso, o tratamento deve buscar não apenas aliviar a contratura, mas também identificar e tratar a causa da dor.

Referências bibliográficas

  1. Simons DG, Travell JG, Simons LS. Travell & Simons’ Myofascial Pain and Dysfunction: The Trigger Point Manual. 2nd ed. Baltimore: Williams & Wilkins; 1999.
  2. Borg-Stein J, Simons DG. Myofascial pain. Arch Phys Med Rehabil. 2002;83(3 Suppl 1):S40-S47.
  3. Gerwin RD, Dommerholt J, Shah JP. An expansion of Simons’ integrated hypothesis of trigger point formation. Curr Pain Headache Rep. 2004;8(6):468-475.
  4. Dunning J, Butts R, Mourad F, et al. Dry needling: a literature review with implications for clinical practice guidelines. J Orthop Sports Phys Ther. 2014;44(2):A1-A47.
  5. Kim J, Nair P. Comparison of dry needling and trigger point manual therapy in patients with neck and upper back myofascial pain syndrome: a systematic review and meta-analysis. J Bodyw Mov Ther. 2021;27:315-326.
  6. Scott NA, Guo B, Barton PM, Gerwin RD. Trigger point injections for chronic non-malignant musculoskeletal pain: a systematic review. Pain Med. 2009;10(1):54-69.
  7. Myofascial Pain Syndrome: An Update on Clinical Characteristics, Etiopathogenesis, Diagnosis, and Treatment. 2025. [Revisão narrativa sobre características clínicas, fatores perpetuantes e opções terapêuticas.]