Botox no tratamento da dor
O botox no tratamento da dor utiliza a toxina botulínica tipo A, que é empregada em algumas condições neurológicas e musculares. Seu uso no tratamento da dor deve ser baseado em indicações específicas e em protocolos respaldados por evidências científicas.
Na Clínica de Dor, utilizamos a toxina botulínica principalmente no tratamento preventivo da enxaqueca crônica, seguindo o protocolo PREEMPT (Phase III REsearch Evaluating Migraine Prophylaxis Therapy), protocolo estudado em grandes ensaios clínicos randomizados e adotado internacionalmente para essa indicação. [1–3]
Enxaqueca crônica
A enxaqueca crônica é caracterizada por cefaleia em 15 ou mais dias por mês, durante mais de três meses, sendo que em pelo menos oito desses dias a cefaleia apresenta características de enxaqueca. [4]
Nesses pacientes, a aplicação de onabotulinumtoxinA pode reduzir a frequência dos dias de cefaleia, dos dias de enxaqueca e o impacto da doença sobre a qualidade de vida. Os estudos do programa PREEMPT demonstraram eficácia e segurança da toxina botulínica como tratamento preventivo da enxaqueca crônica. [1,2]
No botox no tratamento da dor relacionada à enxaqueca crônica, o tratamento é realizado de acordo com o protocolo PREEMPT, que utiliza aplicações em pontos anatômicos padronizados da cabeça e do pescoço, com possibilidade de individualização conforme a distribuição da dor e da sensibilidade muscular. O protocolo recomenda aplicações a cada 12 semanas, utilizando habitualmente 155 unidades, podendo chegar a 195 unidades conforme a técnica estabelecida. [2,3]
A resposta ao tratamento deve ser acompanhada ao longo dos ciclos, considerando não apenas a redução do número de dias de cefaleia, mas também intensidade da dor, incapacidade funcional, consumo de medicações de resgate e impacto da doença na qualidade de vida. [3]
É importante destacar que a indicação da toxina botulínica é para enxaqueca crônica, e não para a enxaqueca episódica. A Classificação Internacional das Cefaleias (ICHD-3) estabelece critérios específicos para o diagnóstico de enxaqueca crônica. [4]
E outras formas de dor?
A toxina botulínica também foi estudada em diferentes condições dolorosas, incluindo síndromes miofasciais. Entretanto, os resultados dos estudos são heterogêneos e a evidência disponível ainda não demonstra de forma consistente superioridade sobre tratamentos convencionais, como anestésicos locais e outras abordagens. [5,6]
Por esse motivo, não utilizamos a toxina botulínica de forma rotineira para o tratamento de síndromes miofasciais. Mas casos refratários, sem resposta adequada a outras intervenções e fisioterapia, podem ser avaliados.
O botox no tratamento da dor também não deve ser entendido como uma indicação para todas as condições dolorosas. A escolha deve considerar a evidência científica disponível para cada situação e as características individuais de cada paciente.
A toxina botulínica também possui aplicações bem estabelecidas em algumas condições neurológicas, como determinadas formas de distonia e espasticidade. Essas indicações, entretanto, pertencem principalmente ao campo da neurologia e da medicina física e reabilitação e não constituem o foco de atuação da clínica da dor. [7]
Nosso objetivo é utilizar a toxina botulínica de maneira criteriosa. O botox no tratamento da dor deve ser considerado nas situações em que exista respaldo científico consistente e em que o tratamento possa efetivamente contribuir para o controle da dor e para a melhora da qualidade de vida.
Quando indicado para a enxaqueca crônica, o tratamento segue protocolos estabelecidos e permite acompanhar a resposta ao longo dos ciclos, considerando a frequência das cefaleias, a intensidade da dor, a incapacidade funcional, o uso de medicações de resgate e o impacto da doença na qualidade de vida.
O objetivo do botox no tratamento da dor é utilizar a toxina botulínica de maneira criteriosa, respeitando as indicações respaldadas pela literatura científica e as necessidades de cada paciente.
Referências
- Dodick DW, Turkel CC, DeGryse RE, et al. OnabotulinumtoxinA for treatment of chronic migraine: pooled results from the double-blind, randomized, placebo-controlled phases of the PREEMPT clinical program. Headache. 2010;50(6):921-936. (PubMed)
- Aurora SK, Dodick DW, Turkel CC, et al. OnabotulinumtoxinA for treatment of chronic migraine: results from the double-blind, randomized, placebo-controlled phase of the PREEMPT 1 trial. Cephalalgia. 2010;30(7):793-803.
- Bendtsen L, Sacco S, Ashina M, et al. Guideline on the use of onabotulinumtoxinA in chronic migraine: a consensus statement from the European Headache Federation. J Headache Pain. 2018;19:91. (PubMed)
- Headache Classification Committee of the International Headache Society (IHS). The International Classification of Headache Disorders, 3rd edition (ICHD-3). Cephalalgia. 2018;38(1):1-211. (Ichd-3)
- Leonardi G, Alito A, Portaro S, et al. Intramuscular injections of botulinum toxin for the treatment of upper back myofascial pain syndrome: a systematic review of randomized controlled trials. Eur J Pain. 2024;28(3):369-381. (PubMed)
- Soares AP, Andriolo RB, Atallah ÁN, da Silva EMK. Botulinum toxin for myofascial pain syndromes in adults. Cochrane Database Syst Rev. 2014;(7):CD007533. (Cochrane)
- Simpson DM, Hallett M, Ashman EJ, et al. Practice guideline update summary: Botulinum neurotoxin for the treatment of blepharospasm, cervical dystonia, adult spasticity, and headache. Neurology. 2016;86(19):1818-1826. (PubMed)