Infusões Especiais para Dor e Depressão

Infusões especiais para dor e depressão

As infusões especiais para dor e depressão podem fazer parte do tratamento de pacientes selecionados com dor persistente, especialmente quando mecanismos como dor neuropática, hiperexcitabilidade do sistema nervoso e sensibilização central estão presentes.

Na Clínica de Dor, realizamos infusões intravenosas de lidocaína e infusão de cetamina, de forma individualizada, após avaliação médica. Os medicamentos podem ser utilizados separadamente ou, em situações selecionadas, associados em um mesmo plano terapêutico.

O tratamento é realizado com monitorização contínua e estrutura adequada para a administração segura dos medicamentos, incluindo acompanhamento da pressão arterial, frequência cardíaca e oximetria de pulso.

A segurança do paciente é parte fundamental de todo o tratamento.

Infusão intravenosa de lidocaína

A lidocaína é um anestésico local que, quando administrado por via intravenosa em doses cuidadosamente controladas, apresenta efeitos analgésicos relacionados à modulação da excitabilidade das fibras nervosas e da hiperexcitabilidade do sistema nervoso. Esse efeito é particularmente relevante em algumas condições de dor neuropática e em estados de sensibilização. [1,2]

Por atuar sobre mecanismos envolvidos na transmissão e amplificação da dor, a infusão intravenosa de lidocaína pode ser considerada em pacientes selecionados com dor neuropática persistente e refratária, principalmente quando os tratamentos convencionais não proporcionaram resposta adequada.

Entre os exemplos de dor neuropática estão:

  • neuropatia diabética dolorosa;
  • neuralgia pós-herpética;
  • dor neuropática relacionada a lesões de nervos periféricos;
  • algumas formas de dor neuropática central;
  • síndrome dolorosa regional complexa;
  • outras condições em que exista importante componente neuropático.

A literatura sobre lidocaína intravenosa apresenta resultados heterogêneos entre diferentes condições de dor. Por isso, sua utilização deve ser individualizada, considerando o diagnóstico e os tratamentos previamente realizados. [2]

O que significa “bloqueio simpático venoso”?

O termo bloqueio simpático venoso é utilizado em alguns contextos para descrever o efeito analgésico observado após a administração intravenosa de determinados medicamentos, particularmente a lidocaína, em pacientes com dor na qual pode existir participação do sistema nervoso simpático.

O conceito está relacionado à possibilidade de reduzir a participação de mecanismos de hiperexcitabilidade e de modulação simpática na manutenção da dor.

Entretanto, a infusão intravenosa de lidocaína não deve ser confundida com um bloqueio simpático convencional, como um bloqueio do gânglio estrelado, do plexo celíaco ou plexo simpático lombar. Trata-se de uma abordagem farmacológica sistêmica, com mecanismos analgésicos mais amplos. [1,3]

Infusão intravenosa de cetamina

A cetamina é um medicamento com importante ação antagonista sobre os receptores NMDA (N-metil-D-aspartato), envolvidos na transmissão nociceptiva e nos fenômenos de sensibilização do sistema nervoso.

A modulação desses receptores pode ser particularmente relevante em pacientes com dor neuropática refratária e estados de sensibilização central, nos quais existe amplificação da resposta dolorosa.

A utilização intravenosa da cetamina em dor crônica possui respaldo na literatura e em consensos de especialistas, embora a qualidade das evidências varie de acordo com a doença tratada. Os melhores dados estão concentrados em algumas condições de dor neuropática, mas podem ser utilizados em outras situações. [4,5]

A infusão de cetamina pode ser considerada, após avaliação individualizada, em pacientes com:

  • dor neuropática refratária;
  • síndrome dolorosa regional complexa;
  • algumas condições de dor neuropática central ou periférica;
  • dor associada a fenômenos importantes de sensibilização;
  • determinados casos de dor nociplástica e fibromialgia, especialmente quando outras estratégias terapêuticas não foram suficientes.

A indicação não significa que a cetamina seja eficaz para todos os pacientes com essas condições. A seleção adequada do paciente, a definição do objetivo terapêutico e o acompanhamento da resposta são fundamentais. [4,5]

Dor neuropática, sensibilização central e dor nociplástica

A dor persistente não possui um único mecanismo.

Na dor neuropática, existe uma lesão ou doença que afeta o sistema somatossensorial. São exemplos a neuralgia pós-herpética, neuropatias periféricas dolorosas, algumas neuropatias diabéticas, dores decorrentes de lesões nervosas e a síndrome dolorosa regional complexa.

Na sensibilização central, ocorre aumento da responsividade do sistema nervoso aos estímulos dolorosos, podendo contribuir para a manutenção e amplificação da dor.

Já a dor nociplástica está relacionada à alteração da nocicepção, sem que uma lesão tecidual ou uma lesão do sistema somatossensorial explique adequadamente a intensidade e a persistência da dor.

Esses mecanismos podem coexistir. Por isso, pacientes com dor crônica podem apresentar componentes nociceptivos, neuropáticos e nociplásticos simultaneamente.

Em pacientes selecionados, a modulação farmacológica da hiperexcitabilidade neuronal pode fazer parte de um tratamento multimodal, associado a medicamentos, fisioterapia, atividade física, intervenções psicológicas e outras estratégias de reabilitação.

Fibromialgia

A fibromialgia é uma condição caracterizada por dor musculoesquelética generalizada, fadiga, alterações do sono e outros sintomas associados à disfunção do processamento da dor.

A cetamina tem sido cada vez mais estudada nessa condição, porém os estudos ainda são limitados e heterogêneos. Dessa forma, a infusão de cetamina não é um tratamento de primeira linha para fibromialgia. Em outras palavras, não é o tratamento inicial para a fibromialgia.

Em casos selecionados, especialmente quando existe importante sensibilização e refratariedade a tratamentos convencionais, a utilização pode ser discutida individualmente, sempre dentro de um plano terapêutico mais amplo. [5]

Cetamina para depressão

Além de sua utilização em algumas condições dolorosas, a cetamina intravenosa também apresenta efeito antidepressivo rápido e vem sendo estudada e utilizada em pacientes com transtornos depressivos, particularmente em quadros resistentes ao tratamento convencional.

Na nossa clínica, também recebemos pacientes encaminhados por médicos psiquiatras para avaliação e realização de infusões de cetamina.

Nesses casos, o tratamento é realizado em conjunto com o acompanhamento psiquiátrico do paciente. A infusão não substitui o seguimento com o psiquiatra nem as demais estratégias terapêuticas indicadas para o transtorno depressivo.

Pacientes que já estejam em acompanhamento médico e tenham indicação para tratamento com cetamina também podem ser avaliados individualmente pela nossa equipe.

A decisão pela realização da infusão depende da avaliação clínica, do diagnóstico, dos tratamentos prévios, das contraindicações e dos objetivos terapêuticos.

Como são realizadas as infusões especiais para dor e depressão?

Antes da infusão, o paciente passa por avaliação médica para verificar a indicação do tratamento, condições clínicas, medicamentos em uso e possíveis contraindicações.

Durante a infusão, o medicamento é administrado por via intravenosa, em ambiente apropriado e com monitorização dos sinais vitais.

São acompanhados, conforme a indicação e o medicamento utilizado:

  • pressão arterial;
  • frequência cardíaca;
  • oximetria de pulso;
  • nível de consciência e estado clínico;
  • possíveis efeitos adversos relacionados à medicação.

A dose, velocidade de infusão e duração do tratamento são individualizadas de acordo com o medicamento, a indicação clínica e o peso de cada paciente.

As infusões especiais para dor e depressão são indicadas de forma individualizada, de acordo com a avaliação médica, o diagnóstico, os tratamentos prévios e os objetivos terapêuticos.

Perguntas frequentes

A infusão de lidocaína é indicada para qualquer tipo de dor?

Não. A lidocaína intravenosa é utilizada principalmente em pacientes selecionados, especialmente quando existe componente neuropático ou hiperexcitabilidade do sistema nervoso. A evidência varia conforme a causa da dor e não permite recomendar seu uso indiscriminado para todas as condições de dor crônica. [2]

Lidocaína e cetamina são a mesma coisa?

Não. São medicamentos diferentes, com mecanismos de ação diferentes.

A lidocaína atua principalmente modulando a excitabilidade neuronal e mecanismos relacionados à hiperexcitabilidade da dor. A cetamina atua predominantemente por antagonismo dos receptores NMDA, interferindo em mecanismos relacionados à sensibilização e à transmissão da dor. [1,4]

Posso receber lidocaína e cetamina juntas?

Em situações selecionadas, os medicamentos podem fazer parte de um mesmo plano terapêutico. A decisão depende da avaliação médica e dos objetivos do tratamento.

A cetamina cura a dor crônica?

Não. A cetamina não deve ser apresentada como uma cura para a dor crônica. Em pacientes selecionados, pode proporcionar redução da intensidade da dor e outros benefícios clínicos, mas a duração do efeito é variável e o tratamento deve fazer parte de uma estratégia multimodal. [4]

A cetamina pode ser utilizada para depressão?

Sim. A cetamina intravenosa apresenta efeito antidepressivo rápido e pode ser utilizada em pacientes selecionados com transtornos depressivos, particularmente em situações de resistência aos tratamentos convencionais. A indicação deve ser realizada com avaliação médica adequada e, idealmente, em integração com o acompanhamento psiquiátrico. [6]

Preciso ter encaminhamento de um psiquiatra para realizar cetamina para depressão?

Pacientes encaminhados por seus psiquiatras são recebidos pela clínica para avaliação e realização do tratamento. Pacientes que já estejam em acompanhamento médico e desejem avaliar a possibilidade de tratamento com cetamina também podem passar por consulta para verificar se existe indicação.

A infusão é segura?

Quando existe indicação adequada, seleção apropriada do paciente, dose individualizada e monitorização durante o procedimento, as infusões podem ser realizadas com segurança. A estrutura de monitorização e a capacidade de reconhecer e tratar possíveis efeitos adversos são fundamentais para a segurança do tratamento. [4]

Referências

  1. Lauretti GR. Mechanisms of analgesia of intravenous lidocaine. Rev Bras Anestesiol. 2008;58(3):280-286.
  2. Vlassakov KV, Narang S, Kissin I. Assessment of intravenous lidocaine for the treatment of chronic neuropathic pain: a systematic review. Pain Med. 2022.
  3. Day M. Sympathetic blocks: the evidence. Curr Pain Headache Rep. 2008;8(2):98-109.
  4. Cohen SP, Bhatia A, Buvanendran A, et al. Consensus Guidelines on the Use of Intravenous Ketamine Infusions for Chronic Pain From the American Society of Regional Anesthesia and Pain Medicine, the American Academy of Pain Medicine, and the American Society of Anesthesiologists. Reg Anesth Pain Med. 2018;43(5):521-546.
  5. Schwenk ES, Viscusi ER, Buvanendran A, et al. Consensus Guidelines on the Use of Intravenous Ketamine Infusions for Chronic Pain. Reg Anesth Pain Med. 2018;43(5):521-546.
  6. Mathai DS, Cluck M, Aslam A, et al. Interdisciplinary, Delphi-driven consensus guidelines on the use of intravenous ketamine infusions for depressive disorders from the American Society of Ketamine Physicians, Psychotherapists, and Practitioners. J Affect Disord. 2026;411:121970.